SER 20 anos


O Se Essa Rua Fosse Minha - SER surgiu na década de 1990, buscando mobilizar a sociedade e o poder público para a questão dos meninos e meninas que vivem em situação de rua e, ao mesmo tempo, iniciar uma ação educativa de integração e garantia de direitos.
O trabalho desenvolvido nas ruas, para além do fortalecimento de habilidades sociais como autonomia e protagonismo, dá concretude ao sonho destes meninos e meninas, voltado para a construção de projetos de vida alternativos à vida nas ruas.  A partir do trabalho nas ruas, o SER foi pioneiro na sistematização do uso de técnicas circenses como ferramenta de diálogo pedagógico para a construção de cidadania, lançando as bases do conceito de Circo Social.

A escolha das técnicas circenses foi feita a partir da observação das atitudes que os meninos e meninas desenvolviam nesse "estar nas ruas", como por exemplo, a linguagem corporal, em sua dimensão física e simbólica, enquanto instrumento de resistências, trocas e brincadeiras, desenvolvidas e passadas de uns para os outros, num processo informal de ensino/aprendizagem centrado no lúdico.  O Circo Social é, assim, um produto da capacidade de re-existência da cultura das classe populares.

A concepção metodológica, desenvolvida inicialmente junto à Intrépida Trupe e ao Teatro de Anônimos, serviu de modelo para o programa social Cirque du Monde, realizado através de uma parceria entre o Cirque du Soleil, a ONG Jeunesse du Monde e o SER, multiplicando-se assim o conceito de Circo Social em outras instituições no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Cidade do México e Santiago do Chile, para chegar, posteriormente aos cinco continentes.  Alguns anos mais tarde, junto a importantes organizações como a FASE, a Escola Pernambucana de Circo, o ARRICIRCO e o Afro Reggae, esta mesma articulação se torna a base para a criação da Rede Circo do Mundo Brasil, hoje uma referência internacional em Circo Social.

O Circo Social ganha uma dimensão especial dentro da história do SER, a partir do protagonismo de alguns jovens advindos das ruas que começam a multiplicar a metodologia, respondendo assim, de maneira original às demandas dos "meninos e meninas de rua" e dos "meninos e meninas sem ruas", em comunidades de onde muitos tinham sido expulsos, devido à violência resultante da ausência de políticas de proteção e garantia de direitos.  

O Se Essa Rua passa a ser procurado por diferentes parceiros para multiplicar a experiência, aprimorando na prática seus conceitos metodológicos, fortalecendo o potencial criativo, a solidariedade e o protagonismo dos jovens "Circuladores de saberes", multiplicadores da magia, da técnica e dos saberes populares do Circo.  Com base nesse trabalho têm surgido novas experiências comunitárias e organizações que trabalham com Circo Social.

A
metodologia de Circo Social nos Núcleos de Educação Popular a Partir da Rua - NEPaR tem se consolidado com o aprendizado das atitudes corporais e do movimento de migração dos meninos e meninas, dialogando com as rodas de capoeira, com artistas de rua e do Teatro do Oprimido, instalando fóruns educativos em praças públicas, com o objetivo de (re) pensar o estar nas ruas.

nos espaços de convivência comunitária, a prática vem se fundamentando no aprendizado dos brinquedos infantis e do universo cultural das famílias.  Neste caso, a metodologia dialoga com folguedos, cordéis e brincantes nordestinos; com a influência negra, através de músicas, danças, "causos" e contação de histórias, estabelecendo paralelo com a tradição dos griôts africanos.  Identidade, pertencimento, expressão e transformação são, assim, eixos que têm como tônica a ludicidade, a ética e a estética dentro de uma concepção de arte, cultura e cidadania que fundamenta o Circo Social do Se Essa Rua.

O Centro de Desenvolvimento Criativo, em funcionamento no bairro de Laranjeiras desde 1994 é, por excelência, o espaço de encontro, formação e irradiação onde os jovens fortalecem suas relações, aprimoram seus saberes e, a partir da reflexão sobre a própria prática, elaboram propostas de políticas para a infância e juventude no Rio de Janeiro.  Nesse processo, eles desenvolvem competências específicas que lhes permitem tornar seus projetos autônomos e sustentáveis: um espaço de convivência, formação artística e política, um espaço para o desenvolvimento crítico e criativo.

Esta história de encontros e aprendizados fortaleceu o SER na sua capacidade de mobilização da sociedade e de participação em diversos espaços sociais para construção de políticas públicas, sempre na perspectiva dos Direitos Humanos Econômicos, Sociais e Culturais (DHESC) e baseados no fortalecimento da participação dos adolescentes e jovens.  

No processo, e pela própria estrutura que assume a discriminação e a pobreza no Brasil, ser mulher, ser jovem, negro ou negra, estar na rua e ter de viver sua sexualidade sob o signo das mais diversas vulnerabilidades a epidemias sociais como o HIV e a Tuberculose, se tornaram questões centrais no trabalho desenvolvido.  Assim, as perspectivas de gênero, raça e etnia, o direito à cidade ou as relativas à saúde social, vão adquirindo diferentes ênfases segundo o trabalho de cada grupo e de cada território, marcando o foco da nossa ação de incidência política.

O trabalho direto com crianças, adolescentes e jovens de classes populares durante os últimos 18 anos, colocou para a organização o desafio de pensar o mundo a partir do olhar dessa garotada.  Um desafio que significa, em primeira instância, lançar um olhar crítico sobre a cidade, seus territórios dispostos para a discriminação e a exclusão, sua organização do espaço urbano que reproduz ainda hoje, como há 120 anos, uma estrutura colonial, onde a cor é sinônimo de determinada condição social, de (des)respeito, de (falta de) acesso a direitos e de perspectivas de vida.

Assim, para o Se Essa Rua Fosse Minha, pensar a infância nas ruas, é repensar a nossa vida, repensar cotidianamente a nossa noção de direitos e cidadania e acima de tudo apostar na enorme potência criativa e transformadora dessas crianças e desses jovens.